Adolescência: o que pode ser bom ou ruim nesta fase (Parte 2).

Escrevo novamente sobre a adolescência dos filhos ou, como prefiro: o estágio em que a família entra na adolescência, conforme estudos sobre desenvolvimento familiar (Carter & McGoldrick, 1995), porque em especial quero servir aos amigos que estão no momento vivendo exatamente esta fase com suas famílias.

Além desta razão, também cansei de me deparar quase que diariamente com o discurso de pais, colegas de trabalho, pastores de igrejas, policiais, conselheiros tutelares, professores e diretores de escolas, avós, apresentadores de programas da televisão e muitas outras pessoas se referindo à adolescência com palavras que rotulam esta faixa etária do desenvolvimento humano de maneira negativa e depreciativa.

Porém, reconheço o sofrimento legítimo das famílias, pois também encarei por anos (quase que diariamente) situações extremas das mais diversas entre o que pode acontecer de pior numa família com filhos adolescentes quando lidam com seus problemas. Pude perceber que aspectos comuns e previsíveis podem se tornar complicados e provocar consequências trágicas que marcam a história de todos ao redor por mais de uma geração, ao mesmo tempo em que as situações mais dolorosas e, aparentemente impossíveis num primeiro momento de avaliação, tornam-se propulsoras de processos transformadores positivos e duradouros.

Seja como for, independente da intensidade das dificuldades que uma família com filhos adolescentes pode enfrentar, existem dimensões do desenvolvimento que devem receber toda a atenção das pessoas que são responsáveis, trabalham ou possuem alguma preocupação (mesmo os que apenas gostam de expressar sua “opinião do final de semana”) por adolescentes. Refiro-me a um modelo de avaliação do desenvolvimento de competências na fase da adolescência amplamente difundido em todo o mundo, que faz parte de um questionário chamado Youth Self Report – YSR (Achenbach & Rescorla, 2004), traduzido e validado no Brasil por Rocha (2012).

Utilizei o YSR em algumas pesquisas e projetos, como na graduação em psicologia e no mestrado em ciências da saúde, neste último estudei o perfil de um grupo de adolescentes grávidas e parte dos resultados estão divulgados no primeiro artigo sobre o trabalho. Existe um segundo artigo com outros resultados da mesma investigação também publicado. Embora nestes estudos eu tenha investigado os aspectos de problemas emocionais e comportamentais, acabei por me acostumar a considerar nas entrevistas da prática clínica os itens da escala de competências que compõe o YSR.

De modo simplificado e apenas para contribuir brevemente com a prática cotidiana de educar adolescentes, a escala de competências do questionário YSR investiga a qualidade do desenvolvimento dos adolescentes quanto aos estudos escolares, habilidades de trabalho, práticas de atividades físicas, envolvimento com passatempos e níveis de amizades.

Adolescentes com bom desempenho escolar, que realizam tarefas de trabalho dentro ou fora de casa, que praticam com regularidade alguma atividade esportiva, possuem o hábito de realizar alguma atividade de passatempo e cultivam amizades significativas estarão menos vulneráveis a problemas emocionais e comportamentais. Caso tenham de fato algum problema ou déficit no desenvolvimento, em primeiro lugar, garantir a um adolescente o acesso a tais áreas de atuação, com certeza, irá potencializar sua capacidade de enfrentamento das dificuldades.

Acrescentando de outra forma, eu costumava argumentar com os diversos atores das políticas públicas que costumavam utilizar a técnica covarde da “encaminhoterapia” (termo vulgar utilizado com frequência nas redes de atenção social e de saúde para descrever a prática de profissionais que se esquivam de assumir a responsabilidade nos seus setores apenas encaminhando as pessoas para outros serviços públicos) que, antes de me encaminharem crianças e adolescentes sem diagnósticos ou apenas com queixas difusas, deveríamos garantir o simples cumprimento do que é previsto em Lei. Pois, está escrito na Constituição Federal do Brasil que “É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão”. (Lei nº 9.610, de 19.02.1998, Art. 227).

Deve-se primeiro garantir direitos às crianças, adolescentes e jovens para depois procurar um rótulo (ou melhor, não rotular) diagnóstico, medicação ou atribuir a elas a causa dos problemas familiares, escolares e da sociedade. Antes de um dia ser obrigado a buscar tratamento para seu filho ou filha, invista no desenvolvimento da sua própria habilidade de parentalidade ou, não deixe de incluir no tratamento dele(a), caso já seja esta a situação, para si mesmo atendimento voltado a lhe ajudar nesta fase de “família adolescente”.

Luis Antonio Silva Bernardo

Psicólogo CRP 06/115616