Estudo de caso baseado em "fatos reais".

            Esta história ocorreu há mais de 20 anos, época em que se iniciou a "luta" para que existisse psicólogos nas escolas públicas. 

           

            Última escola pública municipal do ensino fundamental no último bairro de uma cidade com mais de 1 milhão de habitantes. Sudeste brasileiro. Ano de 2000. 

          No início do ano letivo o quadro de professores não estava completo, com poucos concursados e a maioria atuando por meio de contrato sem vínculo com a unidade de ensino. A direção da escola estava em processo de transição para outra pessoa assumir o cargo. Alguns professores concursados lecionavam há mais de 15 anos na escola, já ensinavam a segunda geração de alunos, filhos dos seus primeiros e conheciam toda a comunidade.

          Quando os últimos professores iriam assumir seus cargos naquele ano, por meio de substituição às licenças médicas e afastamentos por outras razões, os profissionais (ainda no dia da atribuição das aulas na secretaria de ensino) tiveram a intenção de ligar para a escola e obter alguma informação básica sobre que disciplinas e séries estariam assumindo. Mas, não puderam, pois foram informados pelos funcionários da prefeitura no local que toda a fiação da rede telefônica da escola havia sido roubada no final de semana anterior.

          Assim que assumiram seus cargos na escola, na primeira semana, os professores se depararam com a impossibilidade de continuar as aulas até o final da tarde, porque toda a fiação elétrica fora roubada durante a noite. A sala de computadores estava vazia e ainda com as marcas de um incêndio “sem explicação” que ocorrera meses antes. Na semana seguinte todos as torneiras das pias externas e dos banheiros também foram roubadas e dias depois, os vasos sanitários.

          A comunidade era formada por um terço da população que viviam em área de ocupação urbana de terrenos ao redor de um aeroporto internacional, que pertenciam ao Ministério da Aeronáutica. Outro terço da comunidade vivia em área rural e o bairro não tinha asfalto, além de ser um dos mais distantes do centro da cidade, com apenas uma linha de ônibus e com intervalos de circulação em torno de uma hora.

A escola ocupava uma área de cerca de uma quadra e era cercada por telas, com várias partes rompidas, com uma quadra a céu aberto que algumas vezes era utilizada nas aulas de educação física e nos finais de semana a comunidade ocupava para a prática de futebol. Havia um banheiro externo ao lado que era um ponto de venda de drogas e outras ações fora do horário das aulas. O terreno da escola era irregular e o prédio era todo cercado por grades do chão ao teto.

Para atender toda a clientela a escola funcionava em 4 turnos diários de 4 horas. Sendo das 7h00 às 11h00, das 11h00 às 15h00, das 15h00 às 19h00 e das 19h00 às 23h00. As salas eram alternadas por turmas desde o 1º ao 9º ano e algumas com supletivo no período noturno. As mesas e cadeiras tinham apenas um padrão de tamanho e isso era desconfortável para as crianças do primeiro ciclo. Os materiais e uniformes não eram fornecidos pelo município e não havia recursos de equipamentos para atividades diversificadas (como aparelhos de som, multimídia, brinquedos ou objetos esportivos).

Nos intervalos os alunos se alimentavam num pátio interno fechado por portas e janelas de vidro. As aulas costumavam ser bastante barulhentas em todas as séries e muitos alunos corriam pelo pátio externo nos intervalos. Alguns alunos eram conhecidos pelos professores e funcionários por seus apelidos e assim chamados por todos. Poucos frequentavam a biblioteca, apenas em atividades dirigidas, ou algumas meninas do 2º ciclo, depois que um professor do sexo masculino das séries iniciais assumiu como projeto organizar a distribuição dos livros no período da tarde, mas logo este passou a receber ameaças de agressão por parte de alguns alunos.

O bairro era alvo de investigações da polícia civil após o assassinato do prefeito da cidade, pois o principal suspeito morava na localidade e, segundo informações da corregedoria da polícia militar, era líder de uma quadrilha na região com mais de 200 membros. No ano anterior um professor de educação física fora assassinado com disparos pelas costas enquanto pilotava sua moto na saída da escola no final do seu turno.

          Os familiares dos alunos costumavam ir á escola nas situações das reuniões regulares trimestrais, mas a participação era baixa e geralmente apenas entre os responsáveis pelos alunos das primeiras séries escolares. As reuniões pedagógicas contavam apenas com a presença dos professores, direção, uma psicopedagoga e uma assistente administrativa, nenhum membro de outra área dos serviços na escola, representante de alunos ou familiares. As discussões eram em torno de assuntos referentes ao calendário escolar determinado pela secretaria de ensino e ocorrências quanto ao comportamento dos alunos, como por exemplo, sobre um aluno que passou a escrever seu apelido em diversos mobiliários da escola e era um dos mais populares entre os colegas, recém chegado de outra cidade também com mais de uma milhão de habitantes e, segundo informações de um dos professores, “fugido” das perseguições de criminosos.

          Anualmente era costume ocorrer uma confraternização na época no Dia das Crianças na escola com a participação dos professores, que organizavam uma apresentação teatral entre eles mesmos e algumas famílias participavam. Os trabalhos dos alunos costumavam ser expostos fora das salas de aula em varais, mas eram arrancados nos outros turnos.

          Naquele mesmo ano o professor que participava do projeto da biblioteca passou a trazer seu skateboard e deixá-lo ao lado de sua mesa enquanto atendia os alunos na distribuição e recebimento dos livros. Em pouco tempo conheceu alguns alunos que praticavam o mesmo esporte no bairro e passou a vir nos finais de semana com colegas de outras regiões da cidade logo que as ruas foram asfaltadas e andavam de skateboard juntamente com outros jovens de um bairro vizinho.

          Este professor propôs aos jovens organizarem um evento de cultura HIP-HOP na escola juntamente com a uma apresentação de skateboard, com obstáculos que eles usavam e outros que poderiam ser confeccionados. Na mesma semana apresentou a proposta para a nova diretora da escola, que prontamente concordou por reconhecer ser uma oportunidade de criar uma integração em seu início de gestão na unidade escolar. Ela também comunicou a prefeitura sobre a intenção de realizar a atividade.

          Primeiramente foi realizada divulgação entre as famílias dos alunos das séries iniciais, entre todas as salas dos outros ciclos e turnos. Entre a comunidade também foi divulgado nos estabelecimentos de comércio, lojas de skateboard no centro da cidade, entre os praticantes do esporte de outros bairros, grupos de música RAP e PUNK ROCK foram convidados. Professores de outras escolas também foram convidados e cooperaram através de seus contatos e envolvimentos “políticos” com o sindicato ou agentes da secretaria de ensino para a utilização de equipamentos de som, caminhões para transporte dos obstáculos de skate e outros materiais.

           No dia do evento familiares dos alunos participaram vendendo cachorros-quentes no local, refrigerantes e salgados. Lojistas de equipamentos de skateboard ofereceram uma premiação para o participante que realizasse a melhor manobra. Um grupo de “Dança de Rua” que atuava na antiga “FEBEM” participou com garotos e garotas se apresentando. Foram realizados grafites em chapas de madeirites no local e a escola esteve completamente lotada durante um sábado inteiro sem nenhuma ocorrência de acidente ou incidente. O policiamento que havia sido designado para o evento informou depois de algumas horas que iriam para outro evento prestar apoio, pois estava evidente que não havia nenhuma necessidade da presença deles no local.

          Nos meses seguintes a população passou a utilizar o espaço da escola não mais apenas para a prática de futebol e não houve mais atividades ilícitas no local. Comerciantes que haviam cooperado com o evento disponibilizaram ajuda para outras atividades. A cerca foi consertada e não houve mais depredação da escola. Os alunos e toda a comunidade passaram a perguntar sobre quando aconteceria o próximo evento e fizeram muitas sugestões.

          Mas, agora o ano letivo estava no final e o professor que tomou a inciativa era mais um dos contratados temporariamente. A questão é a seguinte: como aproveitar uma experiência coletiva como essa para iniciar outras ações que promovam o desenvolvimento positivo entre a comunidade escolar?

Luis Antonio Silva Bernardo

Psicólogo CRP 19/IP-004142