Dia do Abraço: o que podemos aprender em tempos de distanciamento social?

Hoje, 22 de maio, segundo informação que recebi por meio de um aplicativo de “posts”, é o Dia do Abraço. Em outros tempos imagino que não haveria objeção alguma em se promover este comportamento da forma mais ampla possível. Como já foi muitas vezes tema de campanha e experiências sobre comportamentos sociais, seria difícil imaginar alguma contraindicação para se dar abraços, até em pessoas estranhas e muito mais ainda entre os mais íntimos.

Porém, atualmente, no contexto de pandemia do COVID 19, o abraço se tornou algo perigoso e até proibido por questões de higiene, saúde, ética, regra social ou até mesmo – completamente ao contrário do que este comportamento inicialmente deveria expressar – para demonstrar nosso amor, cuidado ou respeito pelas outras pessoas. Mas, mesmo antes, dependendo do contexto cultural, evitar tal comportamento poderia ser entendido como regra social.

Contudo, dentro da nossa cultura latina e especificamente brasileira, podemos aprender também com as restrições necessárias ao momento em que vivemos após tanto tempo que, enquanto sociedade e em muitas famílias, sofremos muito com esta pandemia. Os hábitos da maioria das pessoas mudaram, as vezes com estranhamento e resistência, mas, de modo geral, prefiro considerar que a maior parte da população são de indivíduos com bom senso e não o contrário.

​Estas mudanças, temporárias ou duradouras, podem trazer benefícios também. O exercício dos direitos, por exemplo, na área das relações interpessoais, é um desafio para quem tem muita dificuldade em simplesmente dizer “não” às solicitações de outras pessoas quando julgam que, por alguma “regra” ou costume sociocultural, são obrigados a agir como é esperado pelos outros.

No entanto, faz-se necessário considerar que mesmo com normas de “etiqueta” ou códigos não escritos entre grupos específicos ou no âmbito da sociedade em geral, existe uma habilidade muito importante chamada Assertividade que nos ajuda a manter a sanidade mental.

Não é o objetivo aqui definir o conceito de Assertividade, pois se trata de algo amplamente estudado e de tantas maneiras diferentes, existe muitos pesquisadores e trabalhos que devem ser conhecidos. Apenas quero destacar a importância do tema e afirmar que é imprescindível estudar sobre direitos interpessoais e habilidades sociais. De maneira um pouco simples para seguir com o assunto, refiro-me à Assertividade como: a expressão de pensamentos e emoções (ou sentimentos) de forma adequada ao contexto de uma relação, sem ser agressivo, mas exercendo seus direitos e mantendo a flexibilidade na interação para que os resultados atendam as expectativas das pessoas envolvidas.

Neste sentido, gosto de relembrar o que aprendi nos primeiros anos do curso de Psicologia quando tivemos dois semestres com a disciplina de Habilidades Sociais. Estudamos os trabalhos do casal Del Prette sobre o tema (Del Prette & Del Prette, 2001) que, com base nos Direitos Universais do ser humano afirmam que todos têm “O direito de recusar pedidos (abusivos ou não) quando achar conveniente” (pag. 142). Estudamos também o livro popular da década de 1970: “Quando digo não, me sinto culpado” do Dr. Manuel J. Smith, no qual ele escreve um conceito importantíssimo para a saúde mental de muitas pessoas: “Você tem o direito de não apresentar razões ou desculpas para justificar seu comportamento”.

Sendo assim, ninguém precisa ir a casamentos, aniversários, festas, velórios, ou seja, qualquer reunião social por mera conveniência ou para “agradar”, por “obrigação” ou porque apenas foi chamado. Sua vontade é importante. Algumas pessoas descobriram que não precisam participar de grandes ou pequenas reuniões para praticar sua espiritualidade, fé ou religião. As escolas podem muito bem ser evitadas porque a vida acontece num universo muito maior do que se pode prever nos exercícios em salas de aula. Muitos descobriram que as atividades físicas são mais saudáveis, prazerosas e baratas ao ar livre.

Enfim, se de fato vivemos em um país onde a diversidade é uma das nossas maiores qualidades, que isto também não seja um defeito e possamos estabelecer normas mínimas comuns para o bom convívio em sociedade que respeitem em primeiro lugar os Direitos Humanos, a saúde (saúde mental) e os espaços individuais de todos, com ou sem abraço.

Luis Antonio Silva Bernardo

Psicólogo CRP 19/004142