Dia dos Namorados (ou: Psicoterapia vs. Aconselhamento)

“Psicólogo não dá conselhos!” – foi uma das primeiras coisas que aprendi ao entrar na faculdade de psicologia. Ainda que “aconselhamento” possa ter alguma conotação técnica referente a um processo de ajuda conduzido por algum tipo de profissional treinado para um serviço deste tipo, definitivamente não é a função do psicólogo. A não ser, no sentido de dar orientações específicas com informações práticas para esclarecer procedimentos de promoção ou prevenção em saúde, direitos sociais ou educação em geral.

Porém, na área de conjugalidade, casamento, namoro ou noivado, fase pré-nupcial, divórcio, vida comum do lar e todo tipo de relacionamentos íntimos, existem tradições ou costumes que ainda consideram a prática de “aconselhamento de casais”. É sobre este assunto que eu discorro neste texto num “Dia dos Namorados”.

É certo afirmar que não foi através da Psicologia que surgiram as Terapias de Casais e Terapias Familiares. As práticas de ajudar casais e famílias podem ser consideradas tão remotas quanto o surgimento dos casamentos e famílias. Foram as próprias formas de organização dos grupos e sociedades humanas que proporcionaram situações em que pessoas (inicialmente os mais velhos) ajudassem outras no processo de se casar, gerar filhos e criá-los, fazer a manutenção das relações íntimas e familiares, prestar cuidados aos mais próximos que necessitassem e, aos poucos, algo foi se sistematizando, algum conhecimento foi acumulado e transmitido para as próximas gerações sobre como repetir estes processos.

Sendo assim, foi no contexto das crenças e religiões que se desenvolveu algo no sentido de “aconselhar” casais sobre como a vida conjugal deve ser vivida ou na resolução dos problemas inerentes à dinâmica desta relação íntima. Por isso, é tão comum encontrar pastores, padres, rabinos ou qualquer tipo de xamã ocupados com a prática de ensinar o que deve ser um casamento ou qualquer união semelhante a isso.

No entanto, nós seres humanos, temos acumulado muitos conhecimentos em todas as áreas das ciências, temos aperfeiçoado o modo de transformar a natureza e a nós mesmos, ou seja, somos seres que produzem Cultura. Não somos meros animais fadados a nos relacionar e viver da mesma forma como surgimos na face da Terra, seja lá como você crê que tenhamos aparecido por aqui e a quanto tempo quiser acreditar. Podemos e devemos trabalhar para melhorar tudo o que pudermos, este deve ser o nosso maior passatempo até a morte.

Se, de fato, alcançamos algum progresso em qualquer área da existência humana (e quero crer que em tantos séculos mudamos muito o modo como nos comunicamos, transportamos, cultivamos, construímos etc.) por que na área do casamento ou relacionamento íntimo conjugal, com tantos estudos científicos realizados e conhecimentos disponíveis, teríamos que insistir em acreditar que não existe um conjunto de informações que podem nos ajudar a ter sucesso?

Por que viver de modo “primitivo” sem se beneficiar dos avanços que a humanidade historicamente produz? Tudo na vida sempre possui uma maneira mais eficaz de ser realizada. Por que as formas de ajudar casais a melhorar seus relacionamentos ou resolver seus desafios não teria? Sei que quem busca ajuda quer apenas que o seu problema seja resolvido e não se importa com o que aquele que o ajuda tenha estudado.

Mas, ainda que não tenha sido propriamente dentro da ciência da Psicologia que surgiu a Terapia de Casal, hoje, nesta área que estuda o comportamento humano, temos produzido conhecimento rigorosamente testado com métodos, técnicas e abordagens consistentemente validadas. Atualmente é possível que profissionais devidamente capacitados ofereçam propostas de trabalho para ajudar aos casais de modo estruturado e sistematizado, não meros “aconselhamentos”.

Mesmo que você se beneficie de qualquer palpite ou conselho de uma pessoa de sua confiança ou estranho, isso não faz de quem o ajudou um especialista para ajudar outras pessoas. Nem significa que o que essa pessoa lhe fez ou disse, é algo a ser generalizado e aplicado em outros casos.

Pessoas que treinam para ser “conselheiros(as)”, ou padres, pastores e qualquer tipo de líder religioso que faz “aconselhamento de casal” pode até ser útil, mas não são profissionais para realizar o trabalho de ajudar casais. Eles se ocupam de muitas outras coisas em suas vidas e profissões, mesmo que tenham feito cursos específicos ou até uma faculdade de psicologia. Imaginemos então quem não estudou psicologia: pode até aprender algum protocolo (ou ser um “coach”) sobre como ajudar casais ou famílias, mas muitas outras questões que são estudadas em psicologia sempre estarão relacionadas aos casos de casais e famílias atendidas e seu trabalho, no mínimo, será limitado (quando não for um desserviço).

Nós, não apenas psicólogos, mas psicólogos que estudamos pós-graduações nas áreas de casamento ou família e atuamos clinicamente com estes casos, dedicamos muitas horas de nossas vidas em todos os tipos de assuntos relacionados ao tema, não apenas no “Dia dos Namorados”.

Ainda, para não esquecer: psicoterapia só com psicólogo(a)!

Luis Antonio Silva Bernardo

Psicólogo CRP 19/004142