E o casamento... como vai?

Quem pergunta sobre como vai o seu casamento? De fato, é comum perguntarmos como vai a família, ou as crianças, seus pais ou como estão as coisas “lá em casa”, mas, sobre o casamento não é sempre que se pergunta. Acho que somente na época em que estudava no Instituto Bíblico em Curitiba eu lembro que era costume conversarmos sobre a qualidade dos casamentos, porém, eu não era casado. No início do curso eu era o único solteiro, numa turma de alunos formada por casais, em que tínhamos aulas com dois terapeutas de casais e famílias vindos dos Estados Unidos.

Além desta época, penso que somente entre amigos muito íntimos falamos sobre nossos casamentos ou apenas perguntamos brevemente como vão as coisas nesta área. Mesmo assim, parece que se fala disso apenas quando surgem problemas sérios que o casal não consegue esconder. Muitas vezes, quando os amigos ficam sabendo de algum problema a decisão da separação e futuro divórcio já foi tomada, ou conflitos sérios já ocorreram e mesmo sem o término da relação as coisas continuam, mas com um nível de qualidade assumidamente ruim devido às sequelas causadas pelas brigas.

Em adição, é importante destacar que, não muito raro e independente de contextos socioeconômicos ou culturais, os problemas são tão sérios que a história do casal acaba em tragédia. Na maioria das vezes, os resultados são o de feminicídio, abuso sexual, violências e abusos em vários outros níveis, sem contar a péssima educação transmitida aos filhos e perpetuação de comportamentos antissociais por mais uma geração. Enfim, os resultados são catastróficos não apenas na vida do casal ou sua família, mas toda sociedade sofre as consequências da irresponsabilidade de duas pessoas que não cuidam de seu relacionamento conjugal.

Sendo assim, a melhor pergunta talvez seja: “E o casamento, o quanto você deseja melhorar ou piorar?” Porque permanecer como está não vai. Não existe “empurrar com a barriga”. Deixar como está ou esperar para ver não é estratégia de enfrentamento dos problemas. Uma relação conjugal ou melhora, ou piora. Se está tudo bem é possível fazer algo para melhorar ainda mais, se nada for feito, como a mudança é inerente à vida, com o tempo as coisas podem ficar ruins. Se existem problemas e nada for feito, sabemos que “não há nada tão ruim que não possa piorar ainda mais”.

Contudo, quero destacar que não há “estabilidade”, este é um conceito ultrapassado em nível de paradigma científico, pois todo sistema (como uma família ou casal) funciona sujeito ao princípio da “instabilidade”, além da intersubjetividade e complexidade, como tão bem ensina Maria José Esteves de Vasconcelos a respeito do Pensamento Sistêmico (2002). O que não deve nos assustar ou parecer algo de difícil compreensão, muito pelo contrário, as vezes apenas saber o que acontece de fato, de início, ajuda muito mais do que tentar descobrir logo o que precisa ser feito.

Além disso, pensar em buscar ajuda já é sinal de saúde e condição para superar os problemas, como Froma Walsh (2016) bem lembrou que os profissionais em saúde mental costumam reconhecer. Não é comum para as famílias ou casais estressados perceber seus recursos ou procurar ajuda, pelo contrário, costuma fazer parte de suas próprias dificuldades não enxergar que há o que fazer para melhorar ou não possuem vontade para tal. Se você(s) deseja(m) melhorar a relação é porque ainda não está(ão) no limite do estresse e isto é ótimo! Pois, sempre é possível encontrar soluções, seja nas situações mais difíceis ou como forma de prevenção para os desafios que naturalmente a vida (conjugal) nos traz.

Enfim, continuo considerando estranho não perguntarmos uns aos outros sobre como vão os nossos casamentos, como se esta fosse uma área restrita e de importância apenas para cada casal. Se nos importamos com as famílias, os filhos e parentes de nossos amigos, por que não desejar e demonstrar que queremos também que seus casamentos sejam saudáveis? Não temos a obrigação ou não somos os mais indicados para fazer algo pela relação conjugal das pessoas ao nosso redor, mas apenas incentivar para que busquem ajuda pode ser fundamental para evitar muita tristeza. Já que reconhecemos a importância das famílias como base da sociedade, qual é a base de uma família?

Luis Antonio Silva Bernardo

Psicólogo CRP 06/115616