Relação colaborativa: uma postura ética e saudável.

Independentemente do tipo de terapia ou abordagem teórica, mesmo nas formas mais ortodoxas baseadas em correntes psicodinâmicas, considero que entre um terapeuta e o cliente (chame de paciente ou qualquer expressão para designar quem contratou outra pessoa em busca de ajuda) sempre ocorrerá um relacionamento “colaborativo”. Com uma forma de atuação bastante ou minimamente diretiva, o profissional terá sempre diante dele um outro ser humano participando da relação, refletindo e tomando decisões sobre sua vida.

Porém, o que se denomina como “Empirismo Colaborativo” é um procedimento terapêutico proposto por Aaron T. Beck desde o início das chamadas Terapias Cognitivas. Não se trata apenas de uma técnica e, como creio, não é exclusividade da conduta de terapeutas que seguem uma linha específica da psicologia. É uma postura de respeito ao cliente não apenas como receptor passivo de intervenções, mas que tem papel ativo formando uma equipe de trabalho em sua própria vida, junto com o profissional que contratou (Knapp & Beck, 2008).

Para ilustrar o modo como entendo esta postura de respeito e trabalho colaborativo entre duas pessoas vou contar uma história que ocorreu há mais de 20 anos.

Certa vez, um rapaz com cerca de 22 anos entrou no prédio de uma igreja sem nome (tinha apenas uma placa escrita: “Aqui se reúnem cristãos”) logo pela manhã de um domingo comum, sem nunca ter sido convidado ou conhecido alguém do local. Ele estava junto com sua namorada e ambos, um pouco tímidos ainda, foram cordialmente recebidos por um jovem e sentaram-se no penúltimo banco do salão principal ainda vazio.

Aos poucos foram chegando outras pessoas, casais e famílias, que os cumprimentavam e apresentavam-se com muita simpatia. Até que uma jovem foi até eles e ofereceu-se para mostrar as outras dependências do local.

Quando retornaram ao salão por uma porta lateral o local estava completamente lotado. Foi então que a jovem que os acompanhava convidou-os para ficarem junto dela no segundo banco, próximo ao púlpito. O rapaz e sua namorada se entreolharam e ele comentou: “é como na parábola que Jesus contou sobre escolher os últimos bancos e ser convidado a se sentar nos primeiros”. Tudo parecia a eles como algo da Providência Divina, muito bonito e com toda simplicidade. Até que um homem, próximo ao final do culto, proferiu o “sermão” fazendo uma analogia entre usar o manual de instruções de um aparelho doméstico e ter a Bíblia como manual de instruções de Deus sobre o modo correto que os seres humanos devem viver.

Ao descer do púlpito, o homem foi abordado pelo rapaz e sua namorada que lhe perguntaram: “o que devemos fazer, revogar nosso batismo na Igreja Católica e sermos batizados aqui?” Talvez o pregador nunca tivesse encontrado alguém que lhe fizesse tal indagação ao final de um culto e demonstrou surpresa com contentamento. Mas, respondeu com a sabedoria típica de alguém que propõe um procedimento de “Empirismo Colaborativo”, ou seja, ele apenas disse: “Bem, eu poderia lhe responder já e seria a verdade, mas convém que você mesmo descubra através das Escrituras Sagradas e, se quiser, eu poderei lhe ajudar estudando um pouco da Bíblia todas as semanas”.

Até hoje eu explico a todos os meus clientes na primeira sessão que, o NOSSO trabalho se dá mais ou menos assim: eu posso até ser especialista em algumas áreas da psicologia e sou, de fato, autoridade para falar sobre certos assuntos, mas a única autoridade e maior especialista sobre sua vida é você mesmo. Sendo assim, eu trago para nossos encontros informações da psicologia e você traz as informações sobre sua vida para juntos, construirmos os caminhos com o intuito de atingirmos os SEUS objetivos, de acordo com o SEU entendimento e julgamento do que é melhor para SUA vida. Obviamente que, em casos de ideação suicida ou homicida, aplica-se o princípio da segurança e menor dano possível.

Luis Antonio Silva Bernardo

Psicólogo CRP 06/115616

Ps.: em homenagem a Alex Soares, meu primeiro professor da Bíblia.