Famílias “desestruturadas”

               Não existe “família desestruturada”! Todas as famílias possuem alguma estrutura, se são boas ou ruins, esta é uma questão conceitual de outra ordem, um julgamento moral ou uma abordagem que na prática é contraproducente para as próprias famílias e pessoas que se dedicam aos serviços de apoio familiar.

Um erro conceitual:

               “Estrutura familiar refere-se ao padrão organizado em que os membros da família interagem” (Nichols & Schwartz, 2007). Quanto a isto, todas as famílias possuem algum padrão de organização e funcionamento e é impossível a ausência de estrutura. Ainda que se utilize outro termo além de “família desestruturada” para se referir a qualquer tipo de família, categorizá-las já seria uma abordagem limitada e uma forma de patologizar o que não pode ser encarado como uma doença.

Um erro moral:

               Categorizar famílias ou indivíduos é em si uma atitude moralmente julgadora. Principalmente no contexto de comunidades Cristãs é de se destacar que se Jesus Cristo disse para não julgar os outros (Evangelho de Mateus 7.1), por que julgar famílias inteiras? Desaprovar ou mesmo aprovar um modelo de família é um julgamento. Não há uma configuração familiar que necessariamente determine o sucesso ou o fracasso. Para apoiar o desenvolvimento saudável das pessoas é preciso identificar fatores protetivos e de risco que podem influenciar o funcionamento de suas famílias.

               Não é uma questão de defender “novas” configurações familiares em contraposição a um suposto padrão “tradicional”, pois não há um modelo ideal de família. Novamente, para utilizar um exemplo de texto da Bíblia, há quase dois mil anos o próprio Jesus afirmou que sua família são as pessoas que fazem a vontade de Seu Pai, independente de ligações biológicas. Familiares não precisam morar debaixo do mesmo teto ou serem consideradas apenas as pessoas da “família nuclear” intacta, sem mortes, divórcios e outras perdas ou mudanças. Até mesmo a família Dele, o Cristo, não era uma família “intacta” e isenta de conflitos segundo o Evangelho de Marcos, capítulo 3, versículos 20 e 21 e, depois, versículos de 31 a 35.

Um erro na prática:

               No sentido prático, utilizar uma expressão ou termo para classificação da condição de uma família, principalmente quando ela enfrenta problemas, centraliza a responsabilidade pelas causas de suas dificuldades apenas em seus membros, como se vivessem isolados sem a influência de todo o contexto social, econômico e cultural no qual estão inseridos. Esta abordagem seria, no mínimo, distorcida da realidade, focada apenas em aspectos negativos ou de vulnerabilidade e a intervenção sim, estaria condenada ao fracasso.

Uma nova abordagem:

               O que faz a diferença para o sucesso ou fracasso de uma família não é o seu modelo ou configuração, mas, promoção de habilidades e competências para execução dos processos necessários às demandas e tarefas do seu desenvolvimento. É muito mais útil para as famílias e pessoas que desejam trabalhar em serviços para apoiá-las que os esforços sejam primeiramente concentrados na identificação dos aspectos positivos de seus membros e todo o sistema dos relacionamentos.

               Neste sentido, o trabalho com famílias será mais bem conduzido com base em abordagens que valorizam características de Resiliência Familiar (Walsh, 2016). Uma expressão mais adequada para se referir àquelas famílias que precisam de apoio é considerar que elas estão a enfrentar múltiplos desafios e, por isso, podem ser consideradas “Famílias Multidesafiadas”.

               Isto não significa apenas escolher uma expressão melhor ou “politicamente correta”, mas descentraliza o foco da culpabilização das famílias e direciona o olhar para onde, de fato, é possível identificar os causadores dos problemas, recursos necessários para as soluções e valoriza os aspectos positivos que todas as pessoas e suas famílias sempre trazem consigo, apesar ou, justamente, devido à experiência de enfrentamento dos múltiplos desafios em suas histórias de vida.

Luis Antonio Silva Bernardo

Psicólogo CRP 19/004142