Guia para Psicoterapia

 

O texto abaixo trata de algo que decidi compartilhar com as pessoas para as quais ofereço atendimento individual atualmente. Para os casais e famílias, embora as bases teóricas que utilizo em meu trabalho sejam semelhantes, devido o funcionamento do processo terapêutico trazer outras especificidades ainda não enviei algo assim.

O que publico aqui pode servir a outros terapeutas como exemplo em seus trabalhos ou mesmo fazer suas críticas e fortalecer o modo diferente como entendem e oferecem seus serviços. Mas, espero colaborar muito mais com as pessoas que buscam por serviços de psicoterapia através da ciência da psicologia. Refiro-me a uma profissão regulamentada e baseada em conhecimentos técnico-científicos (evidências experimentais) e, por isso, claramente identificados quando se está a receber um serviço de qualidade.

O que proponho não é exatamente um protocolo e muito menos algo rigorosamente validado para ser replicado com evidências de resultados estatisticamente testados. Porém, oferece uma estrutura sistematizada e clara que qualquer pessoa pode utilizar para avaliar por si mesma o que contrata para receber como serviço de psicologia clínica. O objetivo é este: tornar transparente o que se pode esperar da psicoterapia. Segue o texto:

“O processo de psicoterapia proporciona um importante espaço e momento em que podemos falar livremente sobre o que quisermos, principalmente a respeito dos assuntos mais sigilosos, dificuldades, pensamentos, emoções, segredos, comportamentos ou qualquer informação que não costumamos mencionar ou mesmo nunca expressamos em nossas vidas. Enfim, a simples oportunidade de falar pode ser bastante terapêutica!

Porém, obviamente que não se trata apenas de uma mera conversa de “desabafo” ou para contar segredos como as vezes é possível em relacionamentos com amigos ou entes queridos que confiamos. Também não é semelhante a “confissões” que podem ocorrer em ambientes ou relações nos contextos religiosos, morais, espirituais ou até judiciais.

Pois, a psicoterapia é um serviço clínico de saúde contratado pelo cliente (paciente) oferecido por um(a) profissional psicólogo(a) que realiza seu trabalho com base em conhecimentos técnico-científicos dentro de um regimento ético e regulamentado.

Sendo assim, seja por meio do serviço público de saúde ou outros setores, outros convênios ou de atendimentos particulares, o investimento (emocional, financeiro, de tempo...) é muito valioso e deve ser respeitado.

Por estas razões acima mencionadas, elaborei este breve e simples “Guia Para Psicoterapia” com a intenção de oferecer às pessoas que tenho a honra de atender como psicólogo algumas informações que devem otimizar o nosso aproveitamento no processo psicoterápico.

Antes de cada sessão considere as seguintes reflexões:

  1. O que aconteceu de importante esta semana?

  2. Como me senti na maior parte do tempo?

  3. Quais são as minhas principais preocupações neste momento?

  4. O que percebo que está mudando e quais são minhas dificuldades?

  5. Como estão meus relacionamentos?

  6. Existe algo que não posso esquecer de falar?

  7. Como foi a última sessão e o que pratiquei desde então?

  8. Existe algo que ainda não consegui falar na psicoterapia?

 

Em cada sessão vamos aproveitar bem o nosso tempo da seguinte maneira:

1º) Avaliação inicial.

2º) Definir os assuntos da nossa “agenda do dia” para a sessão.

3º) Revisar as atividades realizadas na última semana.

4º) Tratar dos assuntos que foram definidos para a sessão.

5º) Definir juntos o que praticar durante a próxima semana.

6º) Dar e receber feedback da sessão e/ou como vai o processo de psicoterapia.

 

Obviamente que esta estrutura não é rígida e poderá sempre ser alterada de acordo com as demandas que, tanto o cliente como o psicoterapeuta, percebem necessárias. Algumas intervenções ou temas são pontuais e seguem estruturas diferentes. A utilização de instrumentos padronizados ou complementares também exigem outra programação de trabalho. O importante é sabermos que se trata de uma forma de trabalho baseada nas Terapias Cognitivo-Comportamentais, que foram e continuam sendo cientificamente desenvolvidas há muitas décadas e por muitos clínicos-pesquisadores que, dentre as diversas abordagens de psicoterapias existentes, são as mais bem testadas e validadas quanto a sua eficácia ao maior número de transtornos ou necessidades em saúde mental.

Seguiremos fases diferentes durante o processo de psicoterapia:

  1. Avaliação, definição das demandas e metas.

  2. Psicoeducação e planejamento de estratégias para o enfrentamento das demandas.

  3. Reavaliação e manutenção dos avanços alcançados.

  4. Prevenção da recaída e encerramento.

O tempo total do processo de psicoterapia e que dedicaremos a cada uma destas fases pode variar de acordo com muitos fatores, como as próprias demandas e interesses dos clientes (pacientes) ou outros aspectos, mas, considero importante lembrar o Código de Ética do Psicólogo em seu texto no art. 2º, alínea “n”, quanto a não prolongar desnecessariamente a prestação do serviço”.

O texto acima é uma das maneiras como tento explicitar o que tenho a oferecer e entendo que isto é necessário por respeito às pessoas que contratam meus serviços. Pois, reconheço que todos têm o direito de escolher fazer qualquer outro tipo de “terapia”. Infelizmente é comum eu receber pessoas que já passaram por processos terapêuticos e não sabem dizer minimamente o que lhes foi oferecido anteriormente e quais foram os ganhos para o seu desenvolvimento, ainda que reconheçam ter melhorado. Mas, é óbvio que se não existir nenhum parâmetro para avaliar o processo de psicoterapia será muito difícil afirmar que a melhora realmente se deu devido a contribuições da intervenção clínica ou, muito mais por outros fatores aleatórios de sua própria vida.

Referências:

- Beck, A. T.; Rush, A. J.; Shaw, B. F.; Emery, G. “Cognitive Therapy of Depression”. The Guilford clinical psychology and psychotherapy series, 1979

- Coelho, R. M. & Teodoro, M. L. M. Terapia de casais: avaliação e intervenção. In, Teodoro, M. L. M. & Baptista, M. N. Psicologia de Família: teoria, avaliação e intervenção. 2 ª Ed. – Porto Alegre : Artmed, 2020.

 

- Wright, J. H.; Basco, M. R.; Thase, M. E. “Aprendendo a terapia cognitivo-comportamental: um guia ilustrado”. Tradução: Armando, M. G. Porto Alegre: Artmed, 2008.

 

- Rodrigues, H., Mesquita, C., Ventura, P. (2019). Tratamento com terapia cognitivo-comportamental e realidade virtual para o medo de voar de avião: protocolo para o terapeuta. In Federação Brasileira de Terapias Cognitivas, C. B. Neufeld, E. M. O. Falcone & B. P. Rangé (Orgs.), PROCOGNITIVA Programa de Atualização em Terapia Cognitivo-Comportamental: Ciclo 6 (pp. 9–42). Porto Alegre: Artmed Panamericana. (Sistema de Educação Continuada a Distância, v. 2)

Luis Antonio Silva Bernardo

Psicólogo CRP 19/004142