Intervenções: o que fazer diante do óbvio?

 

Diariamente todos nós estamos sujeitos a nos deparar com situações em que é óbvio o comportamento inadequado dos outros. Em princípio pode não ser da nossa conta e nem devemos nos espantar com a ignorância, certos abusos, violações de direitos ou violências... ou será que devemos?

Por mais que possamos considerar que cada um faz o que quiser de sua vida ou não é nosso problema, ser omisso também é crime e pode ser conivência com as injustiças que tanto criticamos nas rodas de conversas, reuniões e redes sociais ou ensinamos aos nossos filhos porque pensamos que somos contra.

 

Considere a mãe ou pai que bate em seu filho, talvez uma criança ou mesmo adolescente, em uma situação pública ou diante de você, as vezes um fato recorrente do qual tem conhecimento. É pertinente intervir e repreender ou alertar este adulto? Ele ou ela poderá se voltar contra você e assim criar uma situação de conflito da qual não gostaria e prefere evitar? Tenho escrito sobre o bater como recurso de educação dos filhos e o quanto isto seria possível.

Pois bem, se você é um profissional da saúde, da assistência social, educação, defesa dos direitos humanos ou justiça, talvez seja ainda mais pertinente não se eximir da responsabilidade de intervir de alguma maneira. Eu mesmo já tive a experiência de atuar em quase todas estas áreas e reconheço o quanto incomoda lidar com isso fora do trabalho. Se este for o caso, profissionalmente existem diferentes níveis de intervenção, ao menos cinco, de acordo com pesquisas de estudiosos no assunto, que vão desde as campanhas informativas, divulgações e palestras até a psicoterapia familiar.

 

Mas, se você é uma pessoa diante de tais situações e não trabalha diretamente para lidar com tais problemas, não estudou nem foi treinado para agir em tais casos, está apenas vivendo sua vida e algo chega ao seu conhecimento ou presenciou uma injustiça e isso o incomoda, há sim o que fazer.

 

Em primeiro lugar, não carregue a “culpa do universo em seus ombros”. Nem se arrisque a atuar onde não tem preparo ou experiência. Antes de qualquer coisa, procure se informar sobre as leis e políticas públicas (as vezes só saber o que são políticas públicas já ajuda), se for uma emergência não tenha dúvida, chame a polícia e acione o Conselho Tutelar, Conselho do Idoso, Delegacia da Mulher ou o agente de segurança pública que for adequado ao caso.

 

Se, por acaso, não for uma situação de risco de morte ou algo grave de extrema urgência, se não envolve pessoas que você não conhece, então não ignore o que acontece. Uma vez ciente dos caminhos que são possíveis para ajudar pessoas em vulnerabilidade social ou emocional, não deixe de apontar diretamente a quem você identificou com problemas e apoie a pessoa para que busque por ajuda. Há caminhos sim, valorize os que já existem, mesmo que aparentemente não sejam suficientes para tantas injustiças e problemas sociais.

Enfim, apenas se informar poderá ser o primeiro grande passo que faz muita diferença. Apenas isso já será uma atitude que pode multiplicar ações, trazer possibilidades e incentivar a mudança. Se algo o incomoda além disso, então participe, estude, ajude e incentive com seu dinheiro, tempo, propriedades e contatos. Há uma infinidade de coisas que podemos fazer que vão muito além do que eu e você poderíamos imaginar!

Luis Antonio Silva Bernardo

Psicólogo CRP 19/IP-004142