Bater "é bíblico"? ou: Bater resolve? (parte 3 – Final)

Introdução:

De acordo com a cultura de boa parte das pessoas que se autodenominam como “cristãos” afirmar que algo “é bíblico” significa atribuir toda a autoridade possível para um pensamento ou veracidade de um fato. Bater nos filhos, apesar das evidências de sua ineficiência ou mesmo de seus riscos e limitações, encontra ainda apoio entre indivíduos, famílias e grupos dentro do cristianismo como uma “obrigação dos pais” ou um “mandamento” de Deus.

Objetivos:

Por esta razão, na última semana resolvi empreender uma pesquisa no modelo de uma “revisão sistemática da literatura”, de acordo com critérios e a metodologia exigidos em qualquer área de estudo. Com a diferença simples de que, ao invés de buscar por publicações anteriores que abordaram o assunto em revistas científicas, mantive-me apenas nos textos bíblicos. Após análise dos resultados apresento uma discussão considerando o contexto atual no Brasil frente ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

Método:

Foram realizadas buscas eletrônicas utilizando um aplicativo para leitura da Bíblia chamado “YouVersion” (versão Desktop). Como palavras-chave considerei todas as variáveis dos verbos bater, disciplinar, corrigir, punir, educar, ensinar, orientar, dominar, castigar, repreender e dos substantivos: palmada(s) e vara, como possíveis termos relacionados aos contextos de papéis e práticas parentais. Escolhi diferentes traduções da Bíblia em língua portuguesa do Brasil, consideradas atualizadas, amplamente conhecidas e utilizadas no meio cristão brasileiro, sendo elas: a Nova Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH), Nova Versão Internacional (NVI), Almeida Revista e Atualizada (ARA) e uma em língua portuguesa de Portugal, a Bíblia Para Todos – Edição Católica (BPTC).

Resultados: 

Inicialmente foram encontradas 2.396 citações bíblicas com variações das palavras de interesse, que pode ser conferido nos gráficos 1, 2 e 3. Após leitura dos versos (versículos) foram descartados os que não se referem às práticas e papéis parentais ou algum assunto sobre educação dos filhos, restando 54 ocorrências conforme os gráficos 4, 5 e 6. Depois de serem excluídos os textos repetidos e selecionados apenas os que contém alguma orientação específica para o exercício da parentalidade, foram identificados 13 versículos para análise, que se deu por meio da leitura integral dos capítulos dos livros da Bíblia em que aparecem.

Os resultados apontaram para 61,53% das passagens (08) contidas em textos poéticos da Bíblia, exclusiva e especificamente no livro do Velho Testamento chamado Provérbios (de Salomão). Em livros conhecidos como da Lei de Deus recebida por meio de Moisés foram 23,07% dos versículos identificados (03). Do Novo Testamento, foram 15,38% (2), sendo que 3 destes são do mesmo capítulo da carta aos Hebreus (ver gráfico 7).

Discussão:

Por se tratar de um texto poético, o objetivo do livro de Provérbios é específico em relação ao ensino de jovens para exercerem sabedoria em seus comportamentos, caracterizado por capítulos de explicações, lições, exemplos e sequências de versos que expressam máximas, na maioria compostas pelo terceiro Rei do povo de Israel (Salomão) e algumas de outros autores (ver anexo - "Nos livros Poéticos"). Destaca-se pela linguagem superlativa e com muitas hipérboles para enfatizar a mensagem que se deseja ensinar, característica própria do estilo literário da poesia. Sendo assim, as conclusões de suas frases não são “literais” em si mesmas, mas devem ser consideradas para reflexão e aplicação de princípios. Expressões como “castigar com a vara” são recursos para o ensino de que os pais nunca devem negligenciar a sua função parental e sempre estabelecer limites para o comportamento dos filhos, com consequências. Pois, este entendimento é coerente com as outras formas que aparecem nos textos do livro como “disciplinar” e “corrigir”, além da ênfase dada nas passagens que advertem para que os pais não excedam no “castigo” que administrarem em seus filhos. Ainda que bater pudesse ser um recurso, negligenciar a educação dos filhos nunca poderia ser admitido.

De fato, para investigar se há alguma forma de “mandamento” direto para que os pais usem de disciplina física com os filhos nos textos bíblicos, como é o objetivo deste estudo, faz-se necessário ater aos trechos da Lei no contexto do Velho Testamento. Estes estabeleceram as normas de conduta sob as quais viveram os autores e contemporâneos dos escritos do livro de Provérbios. Como já dito, foram identificados neste estudo apenas três textos que se referem a como os pais devem educar seus filhos, sendo que dois deste são idênticos. Restaram então duas análises textuais.

Na primeira, encontrada no livro intitulado Deuteronômio, no capítulo 6, verso 7 e capítulo 11, verso 19, o texto é praticamente o mesmo segundo a versão da Bíblia NVI (ver anexo - "Nos livros da Lei do Velho Testamento"). Estes trechos são enfáticos quanto ao papel dos pais de que devem ensinar seus filhos a conduta moral e o compromisso espiritual pré-estabelecido na cultura dos antigos Israelitas. Ressalta-se o aspecto de continuidade e frequência constante para o exercício da tarefa de educar em todo o lugar, o máximo possível. Antes de se considerar maneiras de punir ou advertir, o que se deve obrigatoriamente inferir é o mandamento aos responsáveis quanto a orientar seus descendentes.

O segundo texto trata exatamente do que fazer caso o ensino dos pais não dê resultado, ou mesmo aconteça o contrário, isto é, o filho se torne uma pessoa com comportamentos desviante das normas, com o exemplo de desperdício dos recursos e uso abusivo ou dependência em substância psicoativa. Nesta passagem das Escrituras (ver anexo - "Nos livros da Lei do Velho Testamento"), o mandamento é para que os pais não sejam omissos no que se refere a fazer com que o filho responda e sofra as consequências dos seu comportamento diante da sociedade da época. Contexto em que era estabelecida a pena de morte para o filho com tais comportamentos e que se recusasse ao arrependimento mediante a instrução dos pais.

Quanto aos textos encontrados no Novo Testamento, existem poucas orientações diretas sobre como educar os filhos, mas são específicas para que os pais não estimulem o conflito com seus filhos, sem deixar de cumprir com a obrigação de educá-los, como aparece na carta de Paulo aos cristãos que moravam na cidade de Éfeso no primeiro século da nossa era (ver anexo - "Livros do Novo Testamento - Nas cartas"). Enquanto em outra carta do mesmo apóstolo, uma das que escreveu para um de seus colegas no serviço de ensinar as comunidades cristãs da época, Timóteo, o destaque é para a conduta que um homem tido como exemplo para os demais, considerado presbítero (que em grego quer dizer ancião, também considerado bispo ou pastor como sinônimos para a mesma função) deve ter como pai. O que novamente enfatiza o aspecto de que os pais são obrigados a cumprir com o papel de educar os filhos, mas não estabelece nenhum “mandamento” para que o façam através de punições físicas (ver anexo - "Livros do Novo Testamento - Nas cartas" ).

Em comparação com os textos bíblicos pesquisados neste estudo, existe atualmente na sociedade brasileira como Lei o ECA, que determina as obrigações dos pais para com seus filhos e consequências para ambas as partes quando do seu descumprimento. Trata-se de um conjunto de leis que, em 4 sistemas, estabelece os Direitos das crianças e adolescentes, as medidas de Proteção contra a violação destes Direitos, medidas Socioeducativas para os adolescentes que cometem atos infracionais e, por fim, o sistema de medidas Administrativas pela falta de cumprimento destas leis para os agentes adultos responsáveis. Desta forma, vive-se no Brasil hoje uma clara previsão de que as pessoas que ainda não são consideradas adultas perante a Lei devem ser educadas, protegidas e disciplinadas em todos os sentidos necessários ao seu desenvolvimento, sendo este processo de total responsabilidade da sociedade adulta e, com destaque, dos progenitores.

No caso de filhos que violam as leis e são, o que se pode considerar na prática, rebeldes aos ensinos de comportamentos adequados para o convívio em sociedade, os seus responsáveis legais não devem ser omissos em permitir que eles sofram as consequências por seus atos. Desde os 12 anos de idade há previsão de medidas socioeducativas em diversos níveis para os adolescentes e, a partir dos 18 anos, todos são considerados adultos para responderem por seus atos. Os pais cometem erro se não cumprirem com o que lhes é devido para promover o bem-estar dos filhos, assim como também se tentarem protegê-los excessivamente, além da idade.

Conclusão:

Conclui-se que não há nenhum “mandamento” bíblico para que os pais batam em seus filhos. Por isso, não comete “pecado” a família que se recusa a utilizar de punição física para pretensamente “educar” crianças ou adolescentes. A Lei no Brasil estabelece o que deve ser feito no caso de pais que não conseguem exercer o papel parental sem recorrer a violência (confira a Lei) e é obrigação deles buscar ajuda caso não saibam como ensinar sem bater. Há conhecimento nas áreas de estudo do comportamento humano atualmente que podem potencializar a competência de qualquer família para cumprir com seu dever para com os filhos (cito exemplo em outro texto), mesmo para com os que são considerados mais difíceis. Não há justificativa para a violência contra crianças e adolescentes, nem bíblica, nem legal, financeira ou cultural.

Limitações:

Este estudo foi limitado devido as poucas versões da Bíblia que foram utilizadas e ainda em um só idioma. Além disso, apenas um pesquisador reuniu as informações, que não foram comparadas com o que outros poderiam encontrar. Também foi realizado num breve espaço de tempo, uma semana, com dedicação de algumas horas por dia e não foi submetido a nenhuma espécie de revisão por pares. Por fim, não foram considerados aspectos culturais, sociológicos e antropológicos das épocas em que os textos bíblicos surgiram mantendo o foco na aplicações direta destes escritos no contexto atual em que vivemos, sem considerar o nível de recursos, conhecimento tecnológico e costumes que os povos antigos poderiam ter para resolver suas questões práticas cotidianas, especialmente quanto às maneiras mais adequadas de como educar filhos.

Aspectos positivos:

Por outro lado, alguns aspectos positivos podem ser destacados na realização desta pesquisa. Por exemplo, o assunto é atual e faz referência a questões muito antigas de tradição, costume e comportamento humano. Procurou-se seguir neste estudo um método como modelo, “como que numa revisão sistemática da literatura” sobre o tema, que inclusive tornou possível a exclusão de parte dos textos inicialmente considerados nas buscas, nomeadamente a versão católica (ver apêndice). Desta forma, serve de modelo para futuras investigações e produção de materiais a serem ensinados de muitos modos, como de costume nas homilias dominicais de padres, “pastores” ou pregadores amadores. Para que seus discursos não pareçam um apanhado de ideias como que em forma de “salada” apenas para provar algum ponto de vista subjetivo pessoal, familiar ou de um grupo religioso em particular.

Recomendações:

Sugere-se em futuras investigações no aprofundamento do tema, ou mesmo refutação das ideias aqui expostas, que sejam realizados por mais de um pesquisador e submetidos à revisão por outros estudiosos dos assuntos. Também se sugere que, para não ser preciso estudar a infinidade de traduções e versões da Bíblia, além de garantir maior precisão quanto aos termos estudados, sejam realizadas pesquisas diretamente nos textos mais próximos dos originais em hebraico (e/ou aramaico) para o Velho Testamento e grego, para o Novo Testamento.

Campinas - SP, 10/06/2020.

Luis Antonio Silva Bernardo

Psicólogo CRP 06/115616