“Psicólogo Cristão”??? ou "Vudu é pra jacú!" (como diria o bom e velho Pica-pau)

É perfeitamente compreensível que as pessoas busquem por profissionais para lhes prestarem atendimento psicológico com os quais se identifiquem ou possuam alguma característica de afinidade. É comum que jovens moças prefiram ser atendidas por mulheres, que homens mais velhos escolham terapeutas masculinos e próximos de sua idade ou casais procurem terapeutas casados.

Porém, todos sabem que em relação a qualquer profissão e serviço que buscamos não são as particularidades pessoais do profissional que farão a diferença para que o trabalho seja bem executado. Mesmo aqueles que fazem questão de usar certos critérios na escolha do psicólogo/a admitiriam que sabem disto, mas diriam que se sentem mais confortáveis diante de pessoas com algumas características específicas.

Obviamente que todas as pessoas possuem total liberdade na escolha do profissional que desejam contratar. Mas, algumas “preferências” podem expressar justamente aspectos emocionais ou cognitivos que influenciam diretamente os comportamentos que um cliente (ou paciente) deseja superar. Conflitos internos, preconceitos, rigidez, falta de habilidade interpessoal, fragilidades ou até transtornos podem ser mantidos e agravados por não serem trabalhados ou enfrentados, muitas vezes gradativamente com a ajuda de um bom profissional sensível e competente, independentemente de suas características pessoais.

Sendo assim, questiono-me quanto ao fato de pessoas buscarem por atendimento psicológico apenas com profissionais que compartilhem de suas convicções religiosas. O que de fato estas pessoas estão buscando nem precisa estar claro e elas não têm nenhuma responsabilidade em saber, pois são justamente aqueles de direito a serem atendidos em suas necessidades, sejam elas quais forem, mesmo por não saber exatamente o que buscam e não entender sobre o que é realmente a psicologia. Esta responsabilidade é nossa, como profissionais de saúde mental, quanto ao tipo de trabalho que oferecemos e mensagem que transmitimos sobre nossa profissão.

Pois, qual seria o diferencial que um profissional com uma determinada “profissão de fé” possuiria em relação a outro, que possui outra convicção ou mesmo não declare ter fé alguma em qualquer coisa? O simples fato de realizar um procedimento não baseado em evidências técnico-científicas reconhecidas já caracterizaria uma infração ética (Art. 2ª, alínea f do Código de Ética do Psicólogo). Considero uma dupla violação do Código se o procedimento ainda tiver um carácter específico de prática religiosa, por ferir também o Artigo 2º, alínea b, da mesma Lei profissional.

Por se tratar de convicções religiosas, vale lembrar que é comum a todos os tipos de denominações enfatizar alguma forma de discurso moral ou meramente ensinar o cumprimento das Leis civis. Por isso, fica a dica de que um psicólogo que se autointitule como tal, acrescido de algum adjetivo não reconhecido pela profissão, estaria contradizendo o que seus próprios clientes buscam no sentido de um bom serviço.

Seja lá qual for a sua religião, saiba que um bom psicólogo ateu (ou que simplesmente você não sabe qual declaração de fé ele possui), com competência técnica e compromisso ético, poderá lhe ser muito mais útil do que um que diga possuir suas mesmas convicções religiosas, mas não detém domínio técnico-científico e não respeita o código de ética da profissão.

 

Não obstante, todos nós, profissionais de saúde mental ou de qualquer área, temos o direito de não esconder nossas preferências em qualquer assunto. No entanto, quando sou procurado para oferecer meus serviços, sinceramente, prefiro que seja porque a pessoa soube de alguma forma a respeito do meu trabalho e competência, seja devido a algum artigo que publiquei em uma revista científica nacional ou internacional, meus anos de experiência profissional em diversos setores públicos e privados, meu currículo acadêmico, por ter visitado meu site e querer saber mais sobre meu trabalho ou teve alguma indicação de alguém que recebeu meus serviços. Espero que não seja porque sou discípulo de Jesus Cristo, careca, corinthiano, homem e heterossexual, marido, pai, filho, irmão, paulista, curto cinema, gosto de surfar e andar de skateboard, ouço RAP e música PUNK, só tomo cerveja puro malte, café sem açúcar e voto nulo desde sempre ou outra característica não relacionada à psicologia.

Mas, se deseja meus serviços por alguma razão que não é baseada na minha capacidade profissional, tudo bem, podemos começar por aí também e então: “fale-me mais sobre isso...”

Luis Antonio Silva Bernardo

Psicólogo CRP 06/115616